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Independência à moda digital Ediçao 49

 

A um toque no painel de controle, a impressora produz um livro em menos de dez minutos. A?qualidade nada fica a dever ao off-set
Por Helder Horikawa

Um segmento em franca expansão. Esse é o cenário do mercado dos livros sob demanda no Brasil. Na prática, foi na década de 1990 que ele se popularizou entre os escritores iniciantes, que procuravam por baixo investimento e independência em suas produções. Contudo, nos últimos anos, aliado às novas tecnologias de impressões digitais, o setor sofreu um boom. “Até 2000, praticamente 90% daqueles que nos procuravam eram novos autores.

Hoje, a demanda é outra. Há uma forte migração do autor da editora comercial para o sistema independente. Lucro maior, prazos menores e prestação de contas on line estão entre as razões para esse fenômeno”, explica João Scortecci, diretor-presidente da J&M Consultoria em Negócios com Livros, da Editora Scortecci e do Amigos do Livro, de São Paulo.

Scortecci está à frente de uma das editoras pioneiras no País quando o assunto é livro sob demanda. Por lá, o trabalho com publicações em pequenas tiragens teve início em 1982. De lá para cá, os pedidos cresceram. Só neste ano, por exemplo, a editora deverá chegar aos 600 títulos lançados no mercado. “Imprimimos 2,5 títulos por dia”, orgulha-se o empresário.

O sucesso dos livros sob demanda pode ser medido também pelo otimismo de Fábio Arruda Mortara, presidente da Gráfica Paper Express, também de São Paulo. A participação dos livros impressos no sistema digital representava uma pequena parcela. Mas o cenário está mudando. “Até 2007, imprimíamos entre 2 mil e 3 mil exemplares de publicações com pequenas tiragens. A partir de 2008, houve um salto. Chegamos a 15 mil unidades”, compara.

Cada exemplar pode custar, em média, entre R$ 8 a R$ 300. Depende, claro, de número de páginas, tipo de papel utilizado e acabamento a ser produzido. “Por mais que o valor unitário de um livro produzido digitalmente seja maior que aquele feito em processos como o off-set em lotes de centenas ou milhares de exemplares, é fundamental levar em consideração o valor empatado que ficará no estoque, o custo de armazenamento e do descarte de exemplares por ­obsolescência”, diz Ricardo Minoru Horie, diretor da consultoria Bytes & Types, que há 15 anos atua no treinamento técnico para empresas gráficas nas áreas de editoração, pré-impressão e impressão digital na capital paulista.

Com as impressões digitais, ter um livro personalizado ou fora das prateleiras das livrarias pode levar menos de 5 minutos. Ou questão de horas, para uma tiragem de 10, 20 e 30 exemplares. Dados da Amazon.com, nos Estados Unidos, apontam que 30% dos títulos de livros comercializados em sua página são de obras que vendem entre um e cinco exemplares por ano. Por aqui, as editoras retiram anualmente de seus catálogos livros que não tiveram uma vendagem mínima de 1 mil exemplares no prazo de um a dois anos.

No Brasil, segundo Ricardo Horie, parte dos autores de livros sob demanda nem tem interesse em comercializar seus livros, mas sim possuir e presentear amigos e parentes. “Publicar um livro usando os meios tradicionais (submeter textos para editoras) é bastante difícil e estima-se que a cada 10 pretensos autores, somente um consegue”, afirma.

Em termos de qualidade, os livros produzidos por meio de impressões digitais não devem em nada àqueles feitos em off-set. “Sem dizer que a impressão digital traz consigo uma série de diferenciais que antes não eram possíveis, como, por exemplo, a personalização de livros, dedicatórias, serialização e impressão de segurança”, compara Clineu Stefani, diretor comercial da Gráfica Bandeirantes, em São Paulo, uma das pioneiras em impressões digitais no Brasil. “Hoje existem diversas tecnologias de sistema digital, cada qual com sua peculiaridade e qualidade.

Quando comparamos qualidade, temos de lembrar que o sistema de impressão off-set é muito diferente da digital. Olhando por um ângulo técnico vemos que a impressão digital não sofre as consequências físicas e químicas do processo off-set (ganho de ponto, decalque, ondulações no papel etc.). Já analisando como consumidor final, a impressão digital pode muito bem ganhar em qualidade da impressão off-set, dependendo de sua aplicação e finalidade”, completa Fernando Siqueira, supervisor de impressão digital da IBEP Gráfica.

A Gráfica Paper Express tem o foco dos livros sob demanda voltado para as pequenas editoras, que reúnem escritores em começo de carreira ou mesmo marinheiros de primeira viagem. No total, algo em torno de 15 editoras trabalham em parceria com a Paper. O número deve crescer em breve. “Nunca prospectamos clientes, mas vamos começar um trabalho mais profundo nessa área. Esse segmento surgiu naturalmente em função da demanda do mercado”, explica Mortara.

Diante de tamanho mercado, as gráficas não querem ficar para trás. Quem já tem impressoras digitais quer aumentar e atualizar seus sistemas. Aquelas que ainda resistem à modernidade buscam encurtar os caminhos da tecnologia. “De acordo com recente estudo que desenvolvemos em parceria com o Sebrae Nacional, o número de máquinas de impressão digital no Brasil é de aproximadamente 8?mil. Parte expressiva foi adquirida nos últimos três anos.

Porém, com a crise financeira, o investimento em equipamentos gráficos em geral retraiu este ano. A impressão digital também foi atingida. Só em 2010 devemos ter uma retomada dos investimentos em patamares semelhantes ao início de 2008”, analisa Alfried Karl Plöger, presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).

Entre 2007 e 2008, 37% das 916 gráficas pesquisadas em um estudo da própria Abigraf, coordenado pelo Grupo Empresarial de Impressão Digital, disseram ter a intenção de investir em suas unidades produtivas. “No ano passado foram investidos em máquinas e equipamentos na indústria algo em torno de US$ 1,5 bilhão. É um número muito expressivo.

Parte desses investimentos era em máquinas de impressão digital. Não sabemos precisar qual a porcentagem. A maior barreira de investimento em impressão digital está atrelada ao desenvolvimento do segmento, da cultura de consumo do serviço, da melhoria da qualidade do produto gráfico feito nesse sistema e também uma melhor relação custo-benefício”, diz Plöger.

Em média, segundo Alfried Plöger, a impressão digital cresce 20% ao ano no Brasil. “Isso ocorre porque cada vez mais as tiragens têm sido menores, direcionadas para atender públicos específicos. Isso não significa que a impressão total diminuiu, mas ela se tornou mais segmentada, dividida em diversos produtos diferentes. Assim, se tornou economicamente viável que alguns serviços gráficos de baixa tiragem fossem feitos utilizando impressão digital”, argumenta o presidente da Abigraf.

Esse novo nicho de mercado gerado pelos livros sob demanda fez com que profícuas parcerias ganhem mercado. Atuando nesse segmento desde 1995, a Gráfica Bandeirantes tem acordos com 55 editoras comerciais e universitárias. Mas o contingente pode saltar para 200 após a finalização dos processos de negociação, todas em andamento. “Temos obtido excelentes resultados com a nossa proposta de book on demand para o mercado. Atualmente, produzimos tiragens com miolo P/B entre 1 mil a 1,5 mil exemplares e na colorida temos tiragens médias em 500 unidades”, afirma o diretor Clineu Stefani.

De acordo com ele, atualmente esse setor de livros sob demanda representa entre 18% a 20% do faturamento total da Bandeirantes. “Isso segue padrões internacionais, mas existe uma forte tendência de aumento em razão do advento das novas tecnologias que estão aumentando a linha de corte entre impressão digital e off-set, tiragens essas que nos próximos dois a três anos deverão estar em torno de 3 mil exemplares por título”, afirma.

Além de boas parcerias, o sucesso dos livros sob demanda geraram até novas empresas. Foi o que fez a Ediouro Publicações, do Rio de Janeiro, que criou a Singular Digital para atuar nesse segmento. “Mais do que apostar na impressão digital, apostamos em um amplo conceito de livro digital, que permite que o usuário defina como e quando consumirá o livro. No caso da impressão digital o principal benefício é tornar o livro sempre disponível”, observa Newton Neto, diretor de Tecnologia e Mídias Digitais da Ediouro.

Neto não revela os investimentos feitos pela Ediouro para a aquisição de equipamentos modernos para impressões digitais, como a Ocê, Kodak e HP, mas fontes do mercado revelam que atingiram as cifras de US$ 800 mil. Novas aquisições vêm por aí. Os valores, porém, não são divulgados. “Apostamos nesse setor e nas parcerias. Temos parcerias de pedidos sob demanda com grandes players como as livrarias Cultura, Saraiva, FNAC, Argumento, Travessa e Livraria da Vila”, lembra Neto.



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