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Livros, os campeões do comércio eletrônico Ediçao 49

 

Somos 77 milhões de internautas no País. Este ano, a previsão para o e-commerce chega aos R$ 10 bilhões. Os livros, quem diria?, lideram as vendas e respondem por 20% desse mercado
Por Helder Horikawa

O comércio eletrônico brasileiro contabilizou, no ano passado, R$ 8,2 bilhões em transações feitas por 13,2 milhões de pessoas. Essa impressionante marca suplantou em 30% o volume de vendas registrado em 2007, segundo dados apurados pela consultoria e-bit. As boas notícias não param por aí. A previsão para 2009 é um faturamento de R$ 10 bilhões no e-commerce, com 15 milhões de e-consumidores em um universo de 77 milhões de internautas no Brasil.

Neste cenário de números vultosos, os livros ganham destaque. Eles encabeçam, desde o estouro do comércio eletrônico, a lista dos produtos mais vendidos na rede, com quase 20% de participação, em média. Com isso, as livrarias apostam alto no comércio virtual. “Para as livrarias, que?também mantêm um e-commerce bem estruturado,?as vendas pela web já representam um bom faturamento, algo em torno de 25% a 30% das vendas efetuadas pelas lojas físicas. O problema maior é que a rentabilidade das vendas pela internet para um site?profissionalizado é baixa. Para um site de vendas de livros ter sucesso é necessário um investimento em pessoal capacitado e em tecnologia de última geração”, diz Vitor Tavares, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL).

Praticamente 100% dos títulos publicados no Brasil à disposição no mercado são vendidos pela internet. “Sem medo de?errar, os melhores sites de venda, hoje, no País?tem disponíveis cerca de 500 mil títulos”, exemplifica Tavares. Curiosamente, esse registro chega em um momento em que o mercado sofre com um choque de números. Nos primeiros três meses deste ano, as vendas de livros tiveram queda de 10%. Segundo pesquisa coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, a produção de livros no País caiu de 351,4 milhões, em 2007, para 340,2 milhões de exemplares em 2008.

Apesar dos dados negativos, ninguém na área menciona a palavra crise. Para alavancar as vendas, o comércio eletrônico é um grande aliado. “Oitenta e três por cento das pessoas declaram estar muito satisfeitas com as compras virtuais, o que demonstra confiança no meio. E isso vai auxiliar um crescimento ainda maior no número de e-consumidores”, argumenta Paulo Kendzarski, diretor de marketing da WBI Brasil, uma empresa de Porto Alegre que desenvolve soluções integradas de comunicação online e aplicações web.

“É preciso a livraria se adequar ao novo perfil dos consumidores, que cada vez mais adota este canal de compra sobretudo pela praticidade.Uma loja na internet está disponível em qualquer lugar do Brasil, 24 horas por dia, sete dias por semana”, complementa o jornalista e consultor Sílvio Tanabe, franqueado paulista da Magoweb Marketing Digital e Soluções para Internet.

As empresas que vislumbraram o comércio eletrônico como grande canal de negócios, ainda na década de 1990, colhem bons frutos da aposta. A Livraria Cultura, de São Paulo, criou seu site na internet há mais de 10?anos. Tempos depois, tornou-se uma das primeiras empresas a lançar vendas pela internet no Brasil. Hoje, a rede, com nove lojas espalhadas por São Paulo, Porto Alegre, Recife e Brasília, vende 2,7 mil títulos diferentes e as vendas na web representam 18% do faturamento. “Vendemos em média 45 mil produtos por mês pelo site. As vendas online têm crescido 30% ao ano. Só neste primeiro semestre, vendemos 15% a mais que o mesmo período do ano passado”, comemora Sérgio Herz, diretor de operações da Livraria Cultura.

A entrada da Cultura no mundo virtual foi uma oportunidade empreendedora da família Herz, fundadora da livraria, a convite do empresário Aleksandar Mandic, um dos primeiros brasileiros a explorar comercialmente o serviço de provedor de internet no Brasil. Tudo foi muito na base da “cara e coragem”. “Naquela época, a única operação de comércio eletrônico que começava a se tornar um pouco conhecida dos brasileiros era a da Amazon. Como não queríamos perder oportunidades, mesmo sem saber direito o que iríamos encontrar pela frente, em 1995 colocamos no ar o nosso site”, lembra Sérgio.

A operação bem sucedida da Cultura na web não é um caso isolado. Em Curitiba, no Paraná, a Livrarias Curitiba vende livros pela internet há dez anos. No início, eram informações para divulgar itens escolares dos principais colégios da cidade. Depois, migrou do conteúdo informativo, da divulgação de eventos culturais que acontecem nas lojas, para se lançar como um site vendedor, com mais dinamismo na disputa de clientes. “Para ampliar essa área de atuação, estamos investindo neste ano R$ 190 mil em desenvolvimento e implantação de um novo site mais moderno, dinâmico e fácil de navegar. Também oferecemos treinamento de pessoal e acreditamos que a partir de 2010 teremos uma plataforma tecnológica compatível com nossas ambições de prestar o melhor serviço em vendas e informações pela web”, diz Marcos Pedri, diretor comercial do Grupo Livrarias Curitiba, hoje com 16 lojas na capital paranaense, Londrina (PR), Joinville, Blumenau, Balneário Camboriu, Florianópolis (todos em Santa Catarina), Porto Alegre (RS) e desde dezembro de 2007, em São Paulo.

Nos últimos dois anos, as vendas de livros pela internet na Livrarias Curitiba só registram crescimento. Em 2007, foram comercializados 50 mil livros e no ano passado esse número saltou para 60 mil. Para este ano, a expectativa é vender 78 mil. “A previsão é encerrar 2009 com vendas de 2,6 milhões de livros nas lojas físicas. As vendas pela web vão representar 3% do total, mas devemos ampliar e muito esse montante a partir de 2010 com a nova tecnologia e o novo site. Vamos investir em novas ações, promoções, diferenciais competitivos e atrair o interesse de quem navega pela internet”, enumera Marcos?Pedri.

Essas constantes mudanças para acompanhar as novas tendências e novidades do mundo eletrônico são fundamentais para as empresas que apostam em conquistar maior fatia de mercado utilizando a web como plataforma comercial. “As empresas estão investindo na internet primeiro pelo baixo custo operacional, pois a abertura de um site de comércio eletrônico corresponde em média a 10% do investimento necessário para a abertura de uma filial. Em segundo lugar, pelo alcance que um site de e-commerce pode alcançar, ampliando a participação das empresas no mercado. Em terceiro lugar, pela facilidade de comunicação com seus clientes, prospects”, explica o consultor Paulo Kendzarski.

Para o presidente da ANL, as livrarias que não se adaptarem às ferramentas oferecidas pela tecnologia virtual podem sofrer para atuar no mercado que reúne 2,6 mil livrarias em todo o País, 70% delas de pequeno e médio porte com uma receita média mensal de R$ 45 mil. “Vender?pela internet,?no atual momento?tecnológico em que vivemos, não é só uma tendência, muito menos uma aposta, é uma ­realidade. A falta de um número maior de livrarias?utilizando essa ferramenta em muitos casos é o medo do novo, por falta de capital para investimento, falta de conhecimento no uso das novas tecnologias e, por último,  carência de profissionais de tecnologia da informação com conhecimento na área de livros”, diz Vitor Tavares.

O consumidor que ganha em tempo e praticidade com o comércio eletrônico, ainda pode sair no lucro pagando menos por um exemplar. Na pior das hipóteses, paga o mesmo valor sem sair de casa. “Centenas de pessoas trabalham para que o cliente receba o produto em casa com toda comodidade. Por isso, o preço final do livro é reajustado em até 10%, em alguns casos. Para rebater essa diferença, sempre fazemos promoções de títulos e valor do frete. Em razão disso, muitas vezes os produtos comercializados através do site acabam com o mesmo preço das livrarias”, revela Júlio César Luiz, coordenador editorial da Boa Nova Editora e Distribuidora de Livros Espíritas, com sede em Catanduva, interior de São Paulo.

A Boa Nova, que abriu sua primeira livraria na capital paulista em 2008, comercializa livros pela internet desde 2002. “O investimento nessa área foi uma consequência do trabalho que já era desenvolvido na livraria. Antes de ingressar nesse mercado, a empresa teve a preocupação de realizar uma série de pesquisas para saber quais eram as principais necessidades desse segmento. Com os dados em mãos, montamos o site que atende o mercado espírita e não espírita”, explica Júlio César. Atualmente, 40% das vendas mensais da Boa Nova são realizadas por meio da web. O site já disponibiliza mais de 7 mil títulos (entre livros, CDs e DVDs).

Segundo dados da ANL, as livrarias brasileiras registraram crescimento de 10,46% no faturamento em 2008, totalizando R$ 2,4 bilhões, não incluindo as compras do governo. A projeção para este ano era de 12%, mas a crise deve reduzir essa expectativa. O preço médio do livro, de todos os gêneros, por unidade, custou em média R$ 8. O mesmo saia por R$ 8,58 em 2004, de acordo com a CBL.

Em 2010, o mercado de livros pode sofrer novas quedas com a entrada de pelo menos dois modelos de e-books (aparelhos que guardam livros digitais): BR-100TX e o Leitor-D. “Não há dúvidas de que o brasileiro gosta de novas tecnologias, tendo adotado de forma intensiva computadores, internet e celulares no seu dia-a-dia. Dessa forma, acho que seguiremos essa tendência mundial do livro digital. O que é necessário é que seja com um modelo de negócio que remunere os elos da cadeira produtiva do livro e não de forma ‘pirata’ como aconteceu com a música”, analisa Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros.



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