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O valor do conteúdo Edição 52

 

“Se a informação de qualidade, produzida com altos investimentos, simplesmente for replicada por agregadores de notícias, buscadores e outros, há um risco de simplesmente o modelo ruir”
Por Judith Brito

Levantamento recente do instituto norte-americano Pew Research Center mostrou que os jornais são responsáveis por cerca de metade da produção de conteúdo jornalístico novo. As demais mídias tradicionais juntas (TV, rádio e outros) produzem quase todo o restante, e só 4% das informações inovadoras originam-se nas novas mídias - que são, portanto, simples replicadoras em escala exponencial dos conteúdos originais, produzidos principalmente pelos jornais. Há uma virtude inegável nesta capacidade de repercussão das novas mídias, aptas a ampliar o escopo da comunicação em escala global e em tempo real.

O problema está no modelo caótico e insustentável delineado por circunstâncias do mercado, com a mera reprodução das informações originais, sem qualquer remuneração – muitas vezes, sem ao menos a citação da fonte. Outra pesquisa nos EUA atesta que cada matéria de jornal é reproduzida sem licença em média 4,4 vezes na Internet, chegando a 15 vezes nos títulos de maior credibilidade.

Informações inovadoras são aquelas que tendem a pautar o debate social, e a contribuir de forma decisiva para a formação diversificada de opinião dos cidadãos. Produzi-las com seriedade, independência e qualidade custa caro.

Não é a toa que os jornais ainda hoje são os maiores produtores de informação original. Trata-se da mais antiga e tradicional das mídias, a que teve papel mais relevante nas transformações sociais, econômicas e políticas nos últimos 500 anos, razão pela qual tornou-se símbolo da própria democracia. Jornais têm sido, também, veículos de expressão de referências sagradas da literatura, como Machado de Assis, Euclides da Cunha e Clarice Lispector, para citar só alguns.

O momento de inflexão é crucial: se a informação de qualidade, produzida com altos investimentos, simplesmente for replicada – em muitos casos, roubada – por agregadores de notícias, buscadores e outros, há um risco de simplesmente o modelo ruir.

Não é o caso de discursos retrógrados – de resto, inócuos. As novas mídias vieram para ficar, e devemos entendê-las como avanços que podem significar a melhoria do nível geral de informação, especialmente entre os jovens e em sociedades menos favorecidas. A questão está em encontrar um modelo saudável, que permita a continuidade dos padrões anteriores de qualidade na produção de informação e apuração de notícias. Caso contrário, perde a indústria jornalística, responsável pelos mais de 539 milhões de exemplares que circulam diariamente no mundo. Mas, muito pior, perde a democracia um dos seus maiores guardiões.

Judith Brito
Presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), diretora da Folha de S. Paulo, é formada em Administração Pública (FGV) e tem mestrado em Ciência Política



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