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Receita caseira deu totalmente certo Edição 50

 

Se o governo não consegue zerar o número de cidades sem bibliotecas, o bom caminho parece estar no esforço de comunidades e pessoas que batalham pelo acesso ao livro

O governo corre contra o atraso, mas a batalha é dificílima. São 661 municípios brasileiros, do total de 5.562 em todo o País, que não dispõem de uma biblioteca sequer. Nem aquela estante de parede em uma escola pública. A informação está no site do Ministério da Cultura (MinC).

A meta inicial era eliminar esse déficit constrangedor até julho passado, para “zerar uma dívida social centenária”, nas palavras de Fabiano dos Santos, coordenador do Programa Mais Cultura.
O problema é mais embaixo, infelizmente.

Algumas dessas bibliotecas podem até ter fechado nesse meio tempo. Como ninguém comunicou, ficou por isso.

Já a quantidade de usuários nunca engorda. Apenas um, de cada dez brasileiros, vai com alguma regularidade a uma biblioteca. Mesmo assim, se depois de alguns pedidos não encontrar o livro que pretende consultar, acaba desistindo para sempre.

A maior parte das 661 sem-bibliotecas estão situadas no Norte e Nordeste. Muitas vezes, o prefeito não vê o equipamento como algo importante. O kit-biblioteca que o MinC fornece contém 2,5 mil livros. É muito? É pouco?

A contrapartida que o MinC impõe à prefeitura local, para celebrar o convênio, não é pequena, imaginando-se um município sem recursos: é preciso destinar uma verba, funcionários, local, e estabelecer uma programação cultural para que a encomenda dos 2,5 volumes chegue, acompanhada por um guia de obrigações. Desse jeito, a intenção raramente vai além do gesto.

Mesmo na capital de São Paulo, a imponente Biblioteca Pública Alceu de Amoroso Lima, em Pinheiros, zona oeste da cidade, vem perdendo frequentadores. A algumas quadras de distância, no mesmo bairro, a biblioteca comunitária de catadores de lixo, instalada pela rede ‘Ler é Preciso’ (criada pelo EcoFuturo, mantido pela Suzano Papel e Celulose), vive em uma animação cotidiana, cheia de crianças, jovens e mulheres interessadas em leitura e computação. Dois catadores, que adoram livros, explicaram, em frases simples, porque se sentiram rejeitados no prédio oficial. “Uma vez entrei lá e um guarda me seguiu”, disse um. “Não tive coragem de entrar lá descalço”, argumentou o outro.

A receita talvez seja essa: menos governo, mais comunidade. Mais amor e receita caseira, menos ingredientes e burocracia.

Na favela do Inferninho, em Embu das Artes, cidade com alto registro de violência, às margens da rodovia Regis Bittencourt, funciona a Biblioteca Comunitária Zumaluma.

O nome é composto pelas iniciais de Zumbi dos Palmares, Malcolm X, Martin Luther King e Nelson Mandela, e rende tributo ao quarteto que lutou contra o racismo e em prol da liberdade. Em tese de pós-graduação apresentada na USP, a professora Elisa Campos Machado relata a aventura que foi a criação da Zumaluma, ao mesmo tempo visada pelos traficantes da área e pela polícia.

“A maioria, jovens, homens, negros, desempregados e sem perspectivas, ocupou uma casa abandonada, utilizada, na época, como espaço para tráfico de drogas, desmanche  e até cativeiro de sequestro. A ideia partiu de Cesar Mateus Rosalino, o Vulto. Alguns acharam uma loucura, mas todos se uniram, fizeram mutirão para reforma da casa e se agarraram ao sonho de fazer algo diferente e importante.”

“Nós éramos ingênuos e achávamos que íamos mudar o mundo”, confessou o Bisturi, que integra a Associação Zumaluma.

Mas a polícia estava de olho naquele movimento em torno da casa reformada, mobiliada com estantes precárias e alguns livros. “Eles achavam que nós éramos vagabundos e estávamos na casa para consumir drogas. Entravam armados todo dia para intimidar”, lembra o Bisturi. Só depois que um advogado da Câmara Municipal interveio, através de um ofício, é que a Zumaluma pôde, de fato, funcionar.

Além da biblioteca que serve a toda a população do Inferninho – “aqui é o lugar dos filhos e da família” – a Biblioteca montou um telecentro que funciona em fins de semana com acesso livre (Orkut, Internet etc.), algo que, para quem vive recluso em ambiente de favela, descortina uma janela para o mundo. Nos dias úteis, jovens podem cursar Informática e participar em um projeto de jornalismo comunitário.

Os primeiros tempos foram difíceis, claro.

Certa vez, os rapazes vibraram com uma doação do Banco do Brasil. Eram vários computadores, a senha de que precisavam para alçar novos voos. Ao abrir as caixas, decepção. Os computadores eram velhos, exigiam reparos, mas a parceria não previa essa segunda combinação. Mais uma lição aprendida.

A Expedição Vaga Lume leva outro tipo de proposta, mas o propósito é semelhante. Fundada em 2001 por três paulistanas, escolheu a chamada Amazônia Legal como área de intervenção.

Pareceu loucura, no início. A ideia tinha surgido dois anos antes, em uma viagem à Vila do Céu, minúscula comunidade da Ilha do Marajó. As três decidiram, a seu modo, atuar sobre a rotina amazônica, ‘contribuindo para seu desenvolvimento e preservação’, como informa o site www.expedicaovagalume.org.br.

Surgiu, assim, a missão, definida com estas palavras: ‘Promover o acesso ao livro e à leitura em comunidades rurais da Amazônia Legal Brasileira.’

A Vaga Lume, nesta década, montou 133 bibliotecas, que se espalham por nove Estados (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins). À exceção de sete, que funcionam em zonas urbanas de municípios, todas servem a vilarejos rurais, onde vivem de 10 a 500 famílias: quilombolas, índios, assentamentos; em diversas geografias, ribeirinhas, extrativistas, à beira de estradas.

A chegada de um livro também abre janelas. Para isso, assim que elege o local para instalar uma biblioteca – hoje, a fila de espera chega a centenas! – as providências administrativas são tomadas. O acervo inicial varia entre 150 e 300 livros novos, selecionados com ênfase em títulos de primeiras leituras. A escolha mira tanto qualidade como diversidade. Para abrigá-los, a Vaga Lume despacha estantes de madeira certificada (produzidas pelos detentos de Belém, PA), livreiras de lona reciclada, que servem para expor livros, revistas e jornais. Sem faltar os tapetes para que os mediadores de leitura realizem seu trabalho, dispondo os livros no chão, sobre a coberta, onde ficam protegidos e podem ser manuseados com mais facilidade.

Encerrada a implantação física, a Vaga Lume organiza o tripé composto por (1) estrutura (local, funcionamento), (2) capacitação (para formar mediadores de leitura) e (3) gestão (administração da biblioteca, seu acervo e controle de movimento).  Todos os que se envolvem no funcionamento da biblioteca são locais. Adestrados para o trabalho, que exige um mínimo conhecimento e organização, tornam a biblioteca autônoma, em relação ao comando da Vaga Lume. Que recebe regularmente informações suficientes para monitorar o andamento dos trabalhos.

Um desses coordenadores, Marinho Soares da Silva, de Vista Alegre, município de Caracaraí, Roraima, teve a ideia de montar um cartaz, que pendurou diante da escola onde funciona a biblioteca, com estes dizeres:

‘Não passe sem entrar.  Não entre sem olhar. Não olhe sem pegar. Não saia sem levar.’

Funcionar na escola, um dos raros espaços públicos da comunidade, é mera contingência. O que Marinho quer comunicar é que a biblioteca que dirige está aberta a todos, alunos ou não. Em ocasiões apropriadas, segundo o calendário local, o coordenador organiza ‘Rodas de História’, em que os moradores mais antigos são estimulados a contar experiências, lembranças, fragmentos da tradição oral que passa de pai para filho.

A partir desses registros, são editados, pela turma da Vaga Lume, livros artesanais, manuscritos e desenhados, que passam a integrar o acervo da biblioteca. Até agora, foram mais de 160, número que, embora modesto, reflete a riqueza do imaginário daquela parte do Brasil. Os mediadores de leitura, por sua vez, têm a função de ‘dar voz ao livro’, na descrição de Joana Arari, da Vaga Lume. Seu trabalho é estimular, especialmente nas crianças, o hábito da leitura e a visão do livro como uma porta para o conhecimento. São mais de mil mediadores formados pela Vaga Lume.

Muitas escolas da Amazônia, como a de Boca da Mata, onde funciona outra das bibliotecas da Vaga Lume, têm formato de maloca e o currículo é bilíngue. A de Boca da Mata, aliás, envolve o ensino de vários idiomas. Situada em plena reserva Raposa Serra do Sol, celebrizada pelo julgamento do STF que garantiu a posse do território aos índios, ali convivem as tribos Macuxi, Wapichana, Ingaricó, Taurepang e Patamona, cada qual com seu dialeto.

Em 2007, a Expedição Vaga Lume viu aprovado um projeto no BNDES (Banco Nacional para o Desenvolvimento Econômico e Social) para a criação de 49 bibliotecas comunitárias. Conta com parceiros de peso, além do próprio Governo Federal, entre eles, Votorantim e Banco da Amazônia. Entre os prêmios recebidos em sua trajetória de oito anos, destaque para o Prêmio Jabuti, categoria ‘Amigo do Livro’, da CBL, em 2003; e o Prêmio Difusor do Livro, da ABDL (Ass. Brasileira de Difusão do Livro), naquele mesmo ano.

Se a Expedição Vaga Lume nasceu do voluntarismo, o Instituto EcoFuturo tem por trás a poderosa Suzano de Papel e Celulose. Soma, afora essa retaguarda poderosa, outros 34 parceiros, grandes empresas da cena econômica nacional. Um de seus projetos principais é o Ler é Preciso, que se apoia na formação, é claro, de bibliotecas comunitárias. A última foi inaugurada em setembro, em Bauru, 81º filhote, que foi batizado de Nelson Mandela.

Detalhe: está instalada na Penitenciária Eduardo de Oliveira Viana,a PII de Bauru. Embora seja o caçula da família Ler é Preciso, sua gestação começou mesmo em 2001, na estreia do filme ‘Carandiru’, de Hector Babenco. Desde aquela época, Christine Fontelles, diretora do Ecofuturo, vinha imaginando formas de associar seu projeto de bibliotecas ao desenvolvimento de detentos.

A Nelson Mandela atende presos do regime semiaberto e também funcionários da própria prisão. “O que está em questão é o reconhecimento do direito do preso de ter acesso ao conhecimento produzido pela humanidade e presente nos livros”, afirma o especialista em Linguística, Luiz Percival Leme Britto, que participou do projeto. Conta com um acervo de 1,3 mil livros, de diversas especialidades.

A Biblioteca Ler é Preciso atua em oito Estados – Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. A prioridade são bairros com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).  As 80 unidades – a de Bauru ainda não entrou na medição estatística – atendem 40 mil usuários, por mês, média de 500 por biblioteca. Os números que acumulou falam por si: 130 mil livros novos doados; 1 mil professores formados como Auxiliar de Biblioteca e Promotor de Leitura; 22 unidades em escolas.

Uma biblioteca que merece o título de comunitária é a Ler é Preciso Coopamare, nos baixos do Viaduto Paulo VI, em Pinheiros. A sigla poucos sabem decifrar: Cooperativa dos Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Recicláveis, fundada em 1989. O trabalho sacrificado aliado à baixa remuneração forjou o sentimento de união, daí a ideia de formar a primeira cooperativa do setor, no País. Dessa solidariedade, por sua vez, emergiu uma comunidade com hierarquia, disciplina, objetivos. Até com Código de Ética próprio. Com apoio da OAF (Organização de Auxílio Fraterno), entidade ligada à Igreja, receberam cursos e orientação.

Através do fornecimento do material reciclável à Suzano, em um processo duro em que tiraram do caminho os aparistas, intermediários que negociavam, chegaram ao Ecofuturo e, em um instante, ao sonho da biblioteca. Pode parecer delírio aos olhos de quem vê o carroceiro ou o catador de papel como um quase pária. Manoel Soares, perto de completar 60 anos, trocou a vida de peão da construção civil pela Coopamare. Não sabia ler, foi alfabetizado em curso da própria entidade e, poucos anos depois, tornou-se presidente.

A Biblioteca Coopamare foi inaugurada há dois anos. “Parece que estou realizando um sonho”, disse na solenidade o mesmo Manoel Soares,  emocionado ao ver o acervo imenso de 1,6 mil livros, abrigados  em uma sede própria, construída em terreno doado pela OAF. Tornou-se, desde então, lazer preferencial de mães e crianças. Os pais, depois do serviço, aparecem para pegar ou devolver um livro. Com tanta evolução, os catadores montaram até um site próprio, www.coopamare.org.br.

Um programa ambicioso nessa direção chama-se Arca das Letras, da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, do Ministério da Reforma Agrária. Distribuiu, até o ano passado, mais de sete mil Arcas, caixas-estante com 230 livros, destinadas a assentamentos, comunidades de agricultura familiar, colônias de pescadores e de quilombolas. Dado o gigantismo do projeto, a Secretaria pensa em criar um Sistema Nacional de Bibliotecas Rurais, que, na verdade, vai se tornar outro órgão público sobrepondo-se ao Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Quantas são as bibliotecas comunitárias, dignas do conceito, no País? Que despertam em crianças e jovens a vontade de abrir um livro, ler e deixar-se levar pelos encantos da ficção ou da não ficção, em uma viagem prazeirosa, sem volta.

Para produzir a tese de pós-graduação, a professora Elisa Campos Machado coletou dados de 350, com base principalmente no banco de dados do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL). Selecionou um grupo para pesquisar, entre iniciativas de Oscips (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público), empresas, grupos comunitários e até indivíduos. Entre estes, chama a atenção a Biblioteca T-Bone, de Brasília.

O nome não sugere outra coisa senão um churrasco, e foi dentro de um açougue que o projeto se desenvolveu. O comerciante Luiz Amorim misturou carnes com livros – sem mistura, é claro – mas nem por isso escapou de uma interdição da Vigilância Sanitária. Atropelos à parte, a ideia prosperou, a mídia apoiou, pela originalidade do enredo, e, após 15 anos de vida, a Biblioteca Comunitária T-Bone ocupa sede própria na Asa Norte. Em seu acervo, há mais de 20 mil volumes.

“É impressionante como o brasileiro desmente a imagem de não gostar de livros. Empresto uma quantidade enorme todo mês e já formei gerações de leitores”, conta o ex-açougueiro. Cheio de ideias, montou uma programação cultural com música, ­teatro, todas as noites no espaço T-Bone. Lançou o ‘Bibliotecas Populares’, 26 estantes montadas em pontos de ônibus na W3 Norte. Enquanto aguarda sua condução, o transeunte pode apanhar um livro ou revista, levar embora e devolver depois.

Ele garante: não há roubo nem extravio, muito menos vandalismo contra os livros. “Fico feliz com isso”, diz Amorim, o ex-açougueiro que prefere ser chamado de T-Bone. Faz sentido.



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