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Ter ou não ter, eis a questão Edição 50

 

Contar com um parque gráfico próprio supõe investir pesado e ter escala de produção com serviços para terceiros. Em compensação, o controle de qualidade é absoluto
Por Helder Horikawa

Os números de 2008 foram positivos para a cadeia produtiva do livro, como demonstrou a pesquisa Fipe, de Produção e Vendas do Mercado Editorial Brasileiro (Panorama nº 49).

O faturamento do setor aumentou 9,7% (R$ 3,3 bilhões), cresceram os lançamentos (51 mil, 13,3% sobre 2007). E a grande notícia da pesquisa: o preço do livro caiu.

Os efeitos da crise mundial, no entanto, pairaram como uma nuvem de instabilidade por todo o primeiro semestre.
O drama teve contornos mais complexos para editoras equipadas com gráficas, ou seja, com capital imobilizado em máquinas e equipamentos, necessitando de serviços editoriais e encomendas externas para continuar competindo.
É verdade que dispor de um parque próprio traz a vantagem de atender melhor a demanda interna, com controle de prazos e qualidade de produto. Assim que a ‘marolinha’ se foi, para usar a expressão do presidente Lula, as editoras com gráficas voltaram a acelerar máquinas.

“Com nosso próprio parque gráfico, podemos atender a terceiros, gerando maior volume de trabalho, maquinário e pessoas e, consequentemente, aumentando a lucratividade da empresa”, afirma Diego Moreno, coordenador de Marketing do Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (IBEP).

Desde 1965, isto é, há mais de quatro décadas, o IBEP vem se equipando para atender essencialmente ao mercado de livros didáticos. O braço industrial, IBEP Gráfica, surgiu sete anos depois para atender, na época, necessidades da própria editora e só abriu suas portas para o mercado recentemente, em 2005. Hoje, oferece um conjunto de soluções de impressão que figura entre os mais completos do País. Ali, só se terceiriza a confecção de capa dura e corte vinco. Todo o restante é feito internamente.

Além da Companhia Editora Nacional e a IBEP Gráfica, o Grupo IBEP-Nacional adquiriu, recentemente, a Editora Conrad, referência em publicações pop, como os mangás japoneses. “As publicações da Conrad já estão sendo impressas na IBEP e com certeza o volume será grande. Mas, de uma forma geral, nossa intenção é produzir impressos de qualidade que contribuam para o sucesso de nossos clientes, conquistando sua fidelidade e assegurando rentabilidade em nossos negócios”, afirma Diego Moreno.

Mas até que ponto vale a pena uma editora manter uma gráfica própria?

“A indústria gráfica é um segmento que precisa de um planejamento da produção muito rigoroso. As impressoras precisam ser ‘alimentadas’ 24 horas por dia e sem perdas de tempo”, justifica Carlos Calvo, diretor-geral de operações do Grupo Santillana no Brasil, que desde 2001 tem em seu portfólio a Editora Moderna, de São Paulo, que edita, publica e distribui livros didáticos, materiais de apoio e livros de literatura desde 1968.

De fato, manter uma gráfica exige altos investimentos. O Grupo Ediouro, que nasceu em 1939, entrou efetivamente no segmento gráfico comercial em 1998, aproveitando uma lacuna que se abriu no Rio de Janeiro. “Já tínhamos algumas máquinas, mas injetamos, de lá para cá, cerca de R$ 70 milhões em novos equipamentos. Hoje temos um amplo portfólio de serviços em que oferecemos aos nossos clientes qualidade, diversidade e flexibilidade”, argumenta Luiz Fernando Pedroso, superintendente da Ediouro, uma holding que atua na publicação de revistas, livros, passatempos e também em impressão sob demanda por meio da Gráfica Singular.

O carro-chefe na Ediouro são os livros. Somando-se todas as publicações, já são praticamente 6 mil títulos disponibilizados no mercado. O ritmo dos lançamentos também é dinâmico: são mais de 30 por mês. Já o setor gráfico tem uma carteira com cerca de 60 clientes ativos. Juntas, as atividades da Ediouro devem render um faturamento, em 2009, de R$ 300 milhões, ante os R$ 260 milhões do ano passado. “Estamos sempre dispostos a novos desafios. Temos nossa editora e gráfica próprias, prontas para também atender o mercado”, diz o superintendente Pedroso.

No mercado desde 1977, a Edições Profissionais Ltda. (Edipro), de São Paulo, mesmo sem uma gráfica própria, lança, em média, três livros por mês, entre novidades e reedições. “A razão de não termos operação gráfica é que a editora pode dedicar-se mais ao seu ‘core business’: o livro. Com foco podemos produzir obras cada vez melhores e relevantes”, diz Maíra Lot Micales, coordenadora da Edipro.

Referência no segmento jurídico, a Edipro também é responsável pela publicação de livros tradicionais na área pedagógica, como a Cartilha Caminho Suave, que está em sua 128ª edição. “A cartilha já alfabetizou mais de 30 milhões de brasileiros desde a sua criação. O sucesso deve-se ao seu método de alfabetização simples e extremamente eficiente”, comenta Maíra. Nessa mesma linha, a editora lançou, há dois meses, a Nova Tabuada Fundamental, que garante um rápido aprendizado das quatro operações básicas da matemática.

As publicações didáticas, cujo maior cliente é, exatamente, o Governo Federal, representaram, no ano passado, segundo a pesquisa ‘Produção e Vendas do Mercado Editorial Brasileiro’, da Fipe, 41,09% do faturamento e 34,76% das vendas das editoras, especialmente FTD, Moderna, Ática, Saraiva e Scipione.

“A Moderna participa em todos os segmentos e mercados educativos do ensino básico. Os volumes dependem do tamanho do programa do governo de cada ano. Por isso, podemos dizer que flutua em um intervalo de 30 milhões a 50 milhões de livros por ano. Devemos investir mais de R$ 100 milhões nos próximos cinco anos, como parte de nosso crescimento orgânico.

Também olhamos com interesse as possibilidades de compra de empresas na área de sistema de ensino, oportunidades que poderíamos analisar para melhorar o nosso share nesse mercado”, diz Carlos Calvo, diretor-geral de operações do Grupo Santillana. Segundo estudo do editor José Rosa em sua tese de doutorado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), existem no Brasil cerca de 600 editoras, 5% delas detentoras de 70% do faturamento da indústria do livro no País.

O que gera otimismo no setor editorial é que o brasileiro está adquirindo mais livros. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a média de leitura por habitante passou de 1,8 em 2000 para 3,7 livros no ano passado. As editoras agradecem, embora parte ponderável desse crescimento fique por conta do segmento de didáticos. As gráficas, que não querem que as máquinas parem, agradecem também.

“As editoras sempre foram nossas clientes. Procuramos materializar os conteúdos editoriais, oferecendo alternativas de pré-media, impressão, acabamento e logística”, revela Luis Cláudio Lopes, diretor comercial da RR Donnelley Moore Editora e Gráfica Ltda. “Nunca perdemos trabalhos por não termos uma editora própria, pois sempre recebemos conteúdos prontos. Mas caso necessitem de algum serviço especial, procuramos parceiros no mercado para satisfazer as necessidades dos clientes”, completa Lopes.

Diante de tamanha concorrência no setor, as gráficas mais bem equipadas saem na frente na busca por novos clientes e parceiros. E, neste cenário, a impressão sob demanda surge como uma boa alternativa para atender o mercado. “A solução de livros sob demanda é uma ferramenta poderosa de comercialização que disponibilizamos para as editoras, não para concorrer com elas, mas sim para aumentar suas receitas. Meu discurso como empresário e como ex-presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) sempre foi o seguinte: ‘as editoras não precisam montar gráficas, e sim aumentar seu portfólio de produtos, o número de títulos disponíveis e os seus canais de distribuição’. Por outro lado, por coerência, advogo que as gráficas não têm competência editorial na origem; somos reprodutores das ideias de outrem”, explica Mário César de Camargo, presidente da Gráfica Bandeirantes, de São Paulo.

Para atender a esse segmento, a Bandeirantes lançou, no princípio de outubro, o Bandbook, site de e-commerce de impressão sob demanda. “O Bandbook procura oferecer ao mercado editorial uma ferramenta para ‘ressuscitar’ os títulos fora do catálogo, viabilizando a tiragem pequena, até individual. Nossa postura é colocarmo-nos como aliados das editoras, muitas das quais já aderiram ao conceito: concentrem-se no conteúdo, que cuidaremos da reprodução e, eventualmente, da distribuição”, argumenta.

 Segundo dados da Abigraf, existem no Brasil aproximadamente 20 mil gráficas. O setor faturou, em 2008, um total de R$ 23,74 bilhões, aumento de 2,1% em relação a 2007. Para este ano, a previsão é de que o faturamento chegue a R$ 24,2 bilhões.
 
Uma pesquisa feita pela Abigraf, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), revelou que os impressos editoriais estão entre as linhas de produtos e serviços que mais contribuíram para o crescimento das receitas do setor, com participação de 31% do total. Impressos promocionais e comerciais ficaram em segundo lugar, com 30%; seguidos pelas embalagens, com 28%. As indústrias em geral são a principal clientela do setor gráfico, sendo responsáveis por 35% de seu faturamento. O varejo contribuiu com 26%; as agências de propaganda com 9%; o governo com 7% e as editoras com 6,8%.



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