‘Direito autoral e editorial tem de ser garantido’ | Revista Panorama Editorial - A revista do livro Revista Água Gestão e Sustentabilidade
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‘Direito autoral e editorial tem de ser garantido’ Edição 50

 

Pioneira entre as brasileiras que fizeram acordo, a Editora Senac São Paulo colocou seu catálogo de 750 títulos em exposição. Encara como boa ferramenta de marketing

Vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro, Marcus Vinícius Barili Alves é gerente corporativo da Editora Senac São Paulo, pioneira no Brasil na realização de um acordo com o Google Book. Isso aconteceu em 2006, depois de assistir, em Frankfurt, a apresentação do projeto. Enquanto participava de mais uma edição da maior feira do mundo, Barili Alves concedeu entrevista ao Panorama Editorial, via e-mail. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que levou a Editora Senac São Paulo a permitir que a Google digitalizasse suas edições?

“O contrato firmado objetiva potencializar a localização dos conteúdos de títulos do catálogo na web. Queremos dar maior visibilidade para nossos livros, o que pode facilitar o acesso dos leitores para localizar rapidamente temas de seu interesse. Todo o catálogo da editora está disponível ao internauta, cerca de 750 títulos. A visualização é limitada – não permite impressão, download, etc. – e é acessada em tela de cinco páginas sequenciais ou até 20% não sequenciais. O direcionamento é feito para sites varejistas, nos quais o livro físico pode ser adquirido. Para a editora é importante, pelo volume de visitação que o maior buscador da internet possibilita.”

Esses livros podem ser comercializados, copiados? Quais os pontos vitais do acordo?

“Os livros podem ser comercializados, via direcionamento a sites varejistas. Por enquanto, somente o livro físico pode ser adquirido. O contrato não permite comercialização dos livros em versão digital.  Pode-se consultar todo o acervo da editora, porém a visualização é limitada, como já disse. Essa visualização não permite cópias. Os conteúdos dos livros são indexados por palavras e, ao digitar uma palavra, o usuário tem acesso às obras relacionadas.”

É possível estimar os resultados desse acordo Editora Senac SP/Google?

“A permissão da degustação digital via Google Book Search pode ser uma boa ferramenta de marketing, pois é uma forma de atingir um público potencial maior, que ultrapassa a livraria e os pontos tradicionais de venda, podendo também atingir leitores em diversos países. No caso da Editora Senac São Paulo, é também muito importante porque mais leitores podem conhecer nossos livros e seus conteúdos. Os nossos autores mostram-se satisfeitos com a visibilidade e divulgação das obras – nacional e internacionalmente – que também leva ao incremento das vendas (essa ferramenta possibilita cerca de 10% de alavancagem).”

Sua editora, com o acordo pioneiro, está na vanguarda do mercado editorial?

“Acho que há outras editoras mais avançadas em conteúdos digitais. Sendo uma das primeiras a fechar o acordo com o Google, significa que estamos atentos às mudanças do mercado, mas não creio que estejamos na vanguarda. A ideia do livro digital tem crescido, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. A Editora Senac buscou esse acordo inicial, pela possibilidade de atingir um público potencial maior. Projetos que contemplem essa premissa, serão sempre interessantes para a Senac São Paulo. Estamos estudando e testando várias possibilidades. O Google pretende vender o acesso on line dos livros dos seus parceiros que o autorizarem: é o famoso Online Access, sobre o qual alguns já têm ciência há anos e que logo deve sair do papel, conforme se anuncia. Reportagens o caracterizam como venda de e-books, mas não parece ser o caso. E-books são baixados para computador ou algum outro aparelho tipo celular ou reader. O sistema idealizado pelo Google parece que será diferente.

Estamos aguardando a apresentação. As novas tecnologias estão cada vez mais presentes no mercado editorial, embora tenham um vasto caminho a percorrer. Um exemplo é a parceria que a CBL fechou com a feira de Frankfurt, para a realização de um encontro internacional em São Paulo, em março de 2010 - justamente para discutir novas tecnologias. Encontros na maior feira do mundo sobre o futuro do e-book demonstram também a importância do tema. O Google anunciou que pretende lançar  uma loja on line de livros eletrônicos”.

E o livro digital, que influência terá sobre o livro em moldes tradicionais?

“Não acredito que o livro digital represente uma ameaça ao livro em papel. Entre os motivos, ainda é muito difícil e caro ler livros digitais. O livro em papel é mais agradável de ler, pegar e visualizar, e isso o formato digital não consegue superar. Os livros são os conteúdos off-line e, por suas características e complexidade de construção, são muito mais difíceis de serem ameaçados – razão pela qual resistem. De outra forma, já teria ocorrido com a indústria editorial o mesmo processo da indústria fonográfica. Concordo com a pesquisa divulgada, no início do ano passado (ver abaixo). Tudo muda muito rapidamente nos dias de hoje, mas nem tanto. Há ainda um longo caminho a ser desenvolvido nessa área, especialmente no Brasil, se compararmos com projetos apresentados na feira de Frankfurt, por exemplo.

A pesquisa citada pelo editor Marcus Vinicius, ‘Media Predictions – TMT Trends 2008’, foi apurada pela consultoria Deloitte. Propõe mudanças para que as empresas se adaptem aos desafios, notadamente gravadoras e exibidoras de filmes. Quanto ao setor do livro, o prognóstico é menos ameaçador, diz a Deloitte:

“Um dos principais obstáculos para a adoção em massa do e-book nos próximos anos pode estar ligado à profunda afeição que as pessoas possuem pelo livro tradicional de papel”.

Como vê o direito autoral em face da digitalização em massa de livros pelo Google Book? Autores e editores brasileiros devem buscar acordo com a Google? Em que bases?

“Existem algumas dificuldades que impedem a produção desse material no Brasil por conta da pirataria, má distribuição de renda e baixa escolarização. O aspecto de segurança e proteção dos conteúdos ainda é a maior barreira a ser superada. Os direitos autorais e editoriais têm de estar garantidos para que se possa avançar mais rapidamente com os conteúdos nas plataformas digitais. A exclusão digital enorme também é outro fator de restrição que, aliado ao baixo poder aquisitivo do brasileiro, ainda fará com que o processo digital ande em menor velocidade.

Sem sequer R$ 35 no orçamento para comprar um livro, como conseguirá cerca de US$ 400 (R$ 700) para comprar uma máquina e depois arrumar mais dinheiro para os conteúdos?.  Acredito que os editores devem se informar sobre o tema, seguindo o aconselhamento da CBL, e acompanhar as novidades sobre o assunto, para que possam decidir que rumo tomar”.


EUA: O NATAL TEM FAVORITO
O campeão de vendas do próximo Natal já tem favorito. Nos Estados Unidos, os prognósticos vão para o Kindle. Em Frankfurt, o diretor da Bloomsbury, Richard Charkin, foi mais prudente, em termos. Declarou:

“Neste Natal, duvido que alguém vá gostar de receber um livro eletrônico, preferindo ainda o formato no papel. Mas não sei como será no ano que vem.”

O leitor eletrônico que vendeu 1 milhão de unidades, em 2008, pode explodir de vez em 2009. A consultoria iSuppli projeta, para o mundo todo, um volume cinco vezes maior para o Kindle, que desde outubro pode ser adquirido pelo consumidor brasileiro.

A Amazon receberá encomendas em seu site, cobrando US$ 279. Até aí, tudo bem. O problema começa nas taxas. Só os impostos de importação vão sair por US$ 285,34. Trocando em miúdos, a despesa sairá pelo dobro. A vantagem é que o aparelho funcionará sem nenhum problema, porque um acordo firmado com a AT&T colocará em operação sua rede mundial de roaming.

“Temos milhões de consumidores ao redor do mundo que leem livros em inglês”, informou o CEO Jeff Bezos. “O ­Kindle, agora, permite que esses clientes pensem em um livro e façam o download em menos de sessenta segundos.” Para quem mora fora dos Estados Unidos, a loja virtual colocará em oferta mais de 200 mil títulos em inglês, incluindo jornais e revistas. Cada download custará US$ 2 adicionais.

Que o preço algum dia vai cair, os especialistas não têm dúvidas. Em 2010, a Apple deve lançar seu e-reader, que certamente terá muito maiores atrativos.

 Em rota diversa caminhou a Walt Disney, que implantou um website para assinatura. Por cerca de US$ 80 anuais, a criança pode acessar réplicas eletrônicas da coleção de livros, com divisões por faixas de idade. Assim, as mais novas terão a seção ‘ver e escutar’, com os livros lidos em voz alta e trilha sonora; os que frequentam a escola poderão se divertir com jogos recreativos.

“Os dispositivos de leitura digital ainda não oferecem qualidade e padrão Disney para crianças e suas famílias”, explicou Sarah Epps, criadora do site. Ao optar pela assinatura, desprezando download ou leitores eletrônicos, a Disney faz a sua aposta: durante os próximos cinco anos, o mercado não sofrerá revolução.

Aliás, na feira de Frankfurt, uma pesquisa com editores de todo o planeta elegeu 2018 como o ano da mudança, isto é, quando o livro digital passará à frente.  Falta muito tempo.



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