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Ler e comer faz mal. Quem inventou essa bobagem? Edição 50

 

Loyola apaixonou-se pela leitura ao aprender as primeiras letras. Virar escritor foi consequência
Por Dina Amêndola

Se um desavisado perguntar a Ignácio de Loyola Brandão qual é seu cantinho predileto de leitura, vai ouvir uma resposta atravessada do escritor. Loyola, simplesmente, não concebe o livro imóvel na estante, fechado por anos e anos até que outro desavisado venha tirá-lo do silêncio da biblioteca. Nem imagina um canto da casa reservado para esse prazer que, para ele, deve ser desfrutado a todo instante.

“Leio na mesa, leio na cama, leio na cozinha, leio na varanda. O meu canto de leitura é o próprio livro. Para ler, não são necessárias condições especiais, cantinhos, refúgios.

É necessário o gosto pela leitura, a ânsia por pegar o livro.

Leio no bar. Leio no restaurante. Quando almoço sozinho fora, tenho um livro na mão.

Curioso. Lembro-me quando criança ou jovem, os pais, ou tios, ou vizinhos, viviam dizendo: comer e ler faz mal. Mal a quem? Lembra-se que contei que lia Drago sentado na sarjeta, debaixo do poste?”

De fato, naqueles tempos de menino de Araraquara, distante 250 km de  São Paulo, nem cogitava formar um acervo de oito mil volumes, na biblioteca de seu apartamento, e outro, lá na cidade natal, com mais 10 mil livros. Os heróis das revistas em quadrinhos povoavam sua imaginação com tanta intensidade que lia, literalmente, sentado na calçada, sob a luz difusa de um poste da Light. Ele mesmo conta, e cita autores que leu, adorou, tomou como exemplos para seu próprio futuro:

“Os livros de Tarzan, li todos. Li a coleção completa da ‘Terramarear’, da Editora Nacional. As aventuras de Karl May, um alemão esquisito que escrevia sobre índios americanos. Li ‘Tom Sawyer’, de Mark Twain. Todo Monteiro Lobato. Toda a coleção infantil da Melhoramentos. E olha que eram dezenas de volumes, entre eles: ‘O Cisne Negro’; ‘Simbad, o Marujo’; o ‘Patinho Feio’; ‘A Bela Adormecida’; ‘Gata Borralheira’; ‘João e Maria’; O Gato de Botas. E os Contos da Carochinha.

Meu pai tinha um livro que eu amava: ‘Contos Populares Russos’, adoráveis. Os livros de Emilio Salgari. Tudo sobre piratas. Li e reli ‘Robinson Crusoé’, ‘Alice no País das Maravilhas’, ‘Alice no País do Espelho’. Toda a coleção de ‘Melhores Contos de Fadas’, da Editora Vecchi. Eram volumes luxuosos, de grande formato, coloridos, incríveis. Li gibis (havia também a revista ‘Guri’), fascinado com o Príncipe Submarino, o Capitão Marvel, Joel Ciclone, o Fantasma, Super Homem, Zorro, o Tocha Humana.

Aos 10 anos, o herói Drago me deixou siderado, era uma criação de Bruno Hoggart, o mesmo do Tarzan. Ainda tenho páginas daquele suplemento editado pelo Diário de São Paulo.
Lia na sarjeta, sob a luz do poste.

Li ‘O Conde de Monte Cristo’, ‘Os Três Mosqueteiros’, ‘Os Miseráveis’, ‘O Corcunda de Notre Dame’. Fiquei emocionado com a ‘Joana D’Arc’, de Erico Veríssimo.

Meu pai me fez ler e gostei muito de um grosso volume: ‘Os Santos que Abalaram o Mundo’, de René Fullop Miller.
Uma vizinha abonada tinha a coleção ‘Tesouro da Juventude’ e me emprestou volume a volume. Li os 18 ou 20, inteirinhos. Quase todo o Julio Verne.

Um livro de contos me deixou bastante impressionado. Chamava-se ‘Heróis’. Nunca localizei o autor, nunca mais encontrei aquela edição.”

Loyola, menino criado no interior, filho de ferroviá­rio, quando os trens de fato desbravavam o oeste, daí surgindo a pomposa designação de Estrada de Ferro Araraquarense, Loyola viveu uma infância feliz. De família modesta, desde cedo admirou o pai (Antonio Maria), que era leitor do tipo obsessivo, sendo seu grande incentivador, e a mãe (d. Maria do Rosário) que, embora simples, obrigada desde adolescente a cuidar da casa e criar os irmãos, desde que a mãe faleceu, também adorava ler (“era amarrada nos ‘Ecos Marianos’, grossos almanaques publicados em Aparecida”, lembra, “e tinha toda a coleção de M. Delly”).

Naturalmente, a escola daquela época tinha outra proposta. Ele foi matriculado e cursou o ensino fundamental em colégio particular, cortesia da proprietária, que era amiga da família.

A bolsa de estudos foi decisiva, porque, no caminho de Loyola, apareceu a professora Lourdes Prada, cuja história ele descreve no recente e premiado ‘O Menino que Vendia Palavras’(Objetiva). Memória de infância em forma de conto, ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Ficção, no ano passado, além do Prêmio Fundação Biblioteca Nacional.

É a história de um moleque apaixonado por palavras, pelo som, pelo ritmo. Um dos protagonistas é a professora, que obrigava os meninos a procurar sinônimos, para adestrar seu vocabulário e, frequentemente os despachava para a rua, com a singela missão – para uma criança – de observar a vida. Tarefa cumprida, os alunos escreviam uma redação. A professora Lourdes também ensinava a reescrever histórias infantis, uma forma engenhosa de aprender a escrever. Costumava, mesmo, ler para a classe textos de alguns coleguinhas. Em seguida, pedia a cada um que desse uma nota. Era seu jeito, didático, de cultivar nas crianças uma visão crítica própria.

A professora Lourdes fazia isso não apenas ao julgar um texto. Às vezes, mostrava uma gravura e pedia aos alunos que descrevessem o que estavam vendo – “para aprender a olhar” – e depois que todos colocassem no papel o maior número de elementos do quadro. Finalmente, os alunos eram convidados a escrever, inventando uma história.

Dona Lourdes era, como diz o escritor, “moderna” nos anos 1940, em uma pequena cidade do interior. Quem não aprenderia com ela, com essa didática precisa e preciosa?

Na escola, d. Lourdes. Em casa, o pai, que economizava tostões e assim conseguia comprar livros. Chegou a acumular mil volumes em casa. Cada livro levado para casa significava um brinde ao conhecimento. Loyola descreve o ambiente da alma da casa:

“Lá havia de Luis Edmundo a Graça Aranha, de Zamenhof, o criador do esperanto, a ‘Memórias da Paleontologia’, de Lund. Havia todos os livros do Visconde de Taunay, mas havia Machado de Assis, e vidas de santos. E a coleção completa da revista Seleções, que eu também devorava. Havia toda a ‘Coleção Saraiva’, de ficção. Ele também assinava o ‘Clube do Livro’, do Mário Graciotti. Li Papini, Leo Vaz, Paulo Setúbal, e o ‘Quo Vadis’, e ‘Recordações da Casa dos Mortos’ (Dostoeivski estava completo). Criança imita o pai, imitei. E gostei.”

Aos 20 anos, Loyola mudou-se para a cidade grande, a capital. Bem preparado para o caminho das letras, logo arrumou emprego no jornal ‘Última Hora’, onde foi repórter, colunista, editor de Variedades. Outro tempo rico em experiências. Deixou de ser o caipira de Araraquara para se tornar cidadão da metrópole. Sem esquecer-se das raízes.

“A base que tive foi decisiva para minha imaginação. Para minha fantasia. Para aprender a soltar meus delírios. Aprendi que existem dois mundos, o real e o imaginário, e que eu podia viajar quando quisesse para fora do real.

Para o jornalismo levei a facilidade de vocabulário, o saber dar ritmo às frases, escrever uma reportagem com ritmo de conto. Aprendi a prender o leitor, segurando-o até o final do artigo, do ensaio, da crônica, da reportagem, da entrevista.”

Em 1965, lançou o primeiro livro, ‘Depois do Sol’, de contos. Continuou no ofício de jornalista, claro. Deixou a popular ‘Última Hora’ e galgou vários degraus, contratado pela sofisticada revista ‘Cláudia’, da Editora Abril. Lá mesmo, atuou em ‘Realidade’ e ‘Setenta’, esta a primeira tentativa de se fazer uma revista Vogue à brasileira. Na década de 70, mudou-se para a Editora Três, onde continuou a fazer revistas e a escrever livros. São 34. Desses, dois trazem memórias de viagens, para Cuba e Alemanha (onde morou um ano). Os outros todos cabem na gaveta de ficção, entre romances, contos, literatura infantil e juvenil. Loyola fez incursões por teatro (‘A Última Viagem de Borges’), escreveu roteiros de filmes (‘Bebel que a cidade comeu’, ‘Anuska, manequim e mulher’).

Vinculado à Editora Global, um dos últimos lançamentos é ‘Você é Velho, Jovem ou Dinossauro?’, que ele mesmo resenha como um “almanaque, muito divertido, com referenciais em música, costumes, sexo, frases, gírias, filmes, publicidade de várias épocas. Livro gostoso de manusear e brincar com os amigos.”

Cita outro, ‘Os Escorpiões contra o Círculo de Fogo’. Através do mesmo personagem premiado em ‘O Menino que Vendia Palavras’, produz outra memória da infância passada em Araraquara.

Tem livros traduzidos para espanhol, italiano, inglês, alemão, checo, húngaro, coreano. Todas as sextas-feiras, escreve uma coluna no jornal ‘O Estado de S. Paulo’.

Lembrança final de Ignácio de Loyola Brandão. Livro não pode ficar imóvel na estante, deve ser aberto, lido, devorado, relido tantas vezes até saciar a sede de conhecimento. Por isso, inclusive, acabou de despachar 15 caixas com quase 300 livros para a Biblioteca de Ibiúna, interior paulista, para homenagear Raquel, segundo ele, ‘uma bibliotecária que ama a profissão’.


LIVROS, PRÊMIOS
Ignácio de Loyola Brandão, 73 anos (31/07/1936), é um dos escritores brasileiros que mais produzem, o que vem acontecendo desde os anos 1960. Suas obras mais famosas, entre as quase quatro dezenas que foram lançadas, são: ‘Zero’ (Ed. Brasília/Rio, 1975; edição italiana foi lançada em 1974, um ano antes do Brasil, onde foi censurada em 1976, sendo liberada apenas em 1979); ‘Não verás País Nenhum’ (Global, 2003); ‘O Verde Violentou o Muro’ (Global, 1989; uma visão de sua vivência em Berlim, onde morou em 1982 e 1983); ‘Bebel que a Cidade Comeu’ (Brasiliense, 1968), ‘Pega Ele, Silêncio’ (Símbolo, 1976; Global, 2008; Prêmio Especial do Concurso de Contos do Estado do Paraná 1968); ‘Dentes ao Sol’ (Ed. Brasilia/Rio, 1976); ‘Cadeiras Proibidas’ (Símbolo, 1976); ‘O Homem que Odiava Segunda-Feira’ (Global, 1999, Prêmio Jabuti, categoria Contos); ‘O Beijo Não Vem da Boca’ (Global, 2002); ‘O Anônimo Célebre’ (Global, 2002); ‘Noite Inclinada’ (Global, 2003; Prêmio Pedro Nava de Literatura 1987; titulado anteriormente como ‘O Ganhador’); ‘A Altura e a Largura do Nada’ (Jaboticaba, 2006); ‘O Menino que Vendia Palavras’ (Objetiva, 2007; Prêmio Jabuti, Melhor Livro de Ficção 2008; Prêmio Fundação Biblioteca Nacional 2007).


CANTINHO DA OPINIÃO
Loyola é um observador da realidade, desde moleque. Nos últimos anos, vem se dedicado a viajar pelo Brasil, convidado para palestras em feiras de livros, escolas, universidades. Melhor que ninguém, sabe analisar uma terra de múltiplas facetas e estende seu olhar ao futuro do livro e da leitura:

Como avalia os programas federais de bibliotecas, Vale Cultura?
“Ei! atenção, bibliotecas são fundamentais, sim.  Quanto ao Vale Cultura, não sei não. Essas esmolas não levam a nada. Mas, posso estar errado. Tudo é assistencialismo no Brasil, quando a Ruth Cardoso já mostrou o caminho das pedras com a Comunidade Solidária. Claro que bibliotecas não são tudo. E o preço do livro? Quem compra livro é herói. Que aqueles que formulam as políticas públicas percorram o País, vendo o que de bom está sendo feito e adotando, adaptando, estruturando. Vejam a bienal fora da bienal, em Fortaleza, com os autores falando na periferia ou nas cidades do sertão. Cada lugar tem uma lição a dar. Mas os ministérios ficam em Brasília, uma ilha da fantasia distante do Brasil real. Dia desses, fui a Campinas para um encontro gigante, o COLE que reuniu 2.500 teses sobre leitura. Tem mais teses do que leitores”.

O e-book ameaça o livro de papel?
“Estamos cansados de repetir ao longo de décadas. O cinema vai matar o teatro. A televisão vai matar o cinema. O computador vai matar a literatura. Sempre a mesma coisa quando surge uma tecnologia nova. Há homens que criam para o desenvolvimento, enquanto há homens que têm medo. O mundo tem medo do novo. Os homens são catastróficos. Haverá mudanças, mas não mortes. O livro vai continuar, é fetiche, objeto. Ler em uma telinha cansa, não traz o mesmo prazer de segurar livro, voltar a página, folhear”.

Há uma indiferença geral em relação ao livro, à leitura e à própria literatura?
“Há um Brasil oculto, mas há um Brasil atuante. Há pessoas anônimas trabalhando direito, corretamente, com paixão. Vejam a Casa Meio Norte, escola de Teresina, Piauí, onde as crianças leem de 20 a 30 livros por mês. Vejam os quiosques e as Casas de Leitura de Rio Branco, no Acre, que leva livros ao povo. Vejam os agentes de leitura do Ceará, em que jovens de bicicleta levam biblioteca nas costas para periferia e sítios e chácaras. Vejam as bibliotecas de classe em Joinville. Vejam a Jornada de Literatura de Passo Fundo, que reúne sob uma lona de circo seis mil pessoas interessadas em ouvir e perguntar”.

O que causa o baixo índice de leitura do brasileiro médio?
“É a escola ruim. É o sistema educacional decrépito. A ausência de bibliotecas com grandes acervos, onde quem não pode comprar  livro lê gratuitamente. É o desinteresse de pais que não leem e colocam o filho diante da televisão. São os professores mal pagos que não têm tempo de preparar aulas. Os professores que não gostam de ler e não sabem contar uma história. Os professores preguiçosos e mal preparados. São os currículos burros que levam crianças a ler clássicos cuja linguagem e ritmo não entendem. E principalmente é a educação preparada para fazer passar no vestibular e não olhar para a vida com outros olhos de sonho e imaginação”

A tevê, o rádio, os jogos eletrônicos, a internet desviam a atenção em relação à leitura do livro?
“Não culpemos as mídias passivas. Culpemos a nós, a nossa preguiça, a nossa desídia, ao nosso desinteresse, ao sistema de ensino burro e mal estruturado. O mesmo currículo serve para a aldeia do nordeste, do Amazonas, de São Paulo, etc. Vi no Amazonas livros que falam da criança que sai do metrô, apanha o metrô. O que um garoto de uma vila amazônica sabe do metrô? É o mesmo que um foguete espacial, ele viu no cinema, se é que viu. A menos que seja para incentivar a imaginação. Os livros didáticos são péssimos”.



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