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Peso, cor, brilho. E certificação Edição 50

 

Assunto de iniciados, uma conversa sobre derivados de celulose lembra degustação de vinhos. A escolha do papel para um livro visa, sempre, dar prazer a quem lê

Se o livro de papel resiste e impõe-se ao rival virtual por ser táctil, agradável de manusear, ler e reler, tem tudo a ver com o papel de que é feito.

“Total importância”, exalta Aline Valli, da Cosac Naify, que integra como convidada o ‘Conselho de Papel’ da Arjowiggins, um dos grandes nomes da área industrial. Com boa didática, Aline ensina o caminho das pedras:

“Livros que exigem fidelidade de reprodução de cores e precisão na impressão, geralmente são impressos em papéis com cobertura superficial (coated). São os papéis chamados couché. Livros de texto, leitura prolongada, são impressos em papéis sem cobertura superficial (uncoated), geralmente amarelados ou off-white, para evitar que o contraste exagerado com o preto canse a vista”.

A gramatura tem seu peso, também. Quanto menor o tamanho do livro, menor a gramatura, em nome da maleabilidade.
Um  técnico no assunto, Antonio Gimenez, gerente de Impressão e Conversão da International Paper, corrobora a análise da editora:

“Nossos papéis apresentam opacidade superior, bom corpo, uniformidade e alta resistência superficial, que evita o desprendimento de partículas, algo muito relevante para a produtividade do processo de impressão. Ponto de atenção é a tonalidade constante, variável especialmente controlada no off-white, que oferece menor reflexão de luz, o que propicia mais conforto na leitura”.

Gimenez faz questão de destacar a preocupação ambiental, item considerado pelas editoras. “Nossos papéis têm a certificação Cerflor – Programa Florestal Brasileiro – desenvolvido e gerenciado pelo Inmetro, que assegura manejo responsável e verificação de toda a cadeia de custódia, do plantio ao produto final. A opção pelo tipo de papel acaba sendo do editor, que avalia as demandas e preferências dos leitores”.

A IPaper atende todos os segmentos, didáticos e não didáticos, na sua fábrica ou através de seus distribuidores.
Detalhando nomes e propósitos, Francine Felippe Santos, analista da MD Papéis, apresenta os produtos que oferece às editoras:

“Temos o Chamois Fine (5 gramagens e cores Dunas e Marfim), papel off-white, para confecção de livros. As cores suaves permitem leitura agradável, pois não refletem a luz e não cansam a vista. O Chamois Bulk (idem) é um off-white com alto ‘bulk’ (corpo), adequado para livros que necessitam de uma apresentação mais encorpada. O Extra Alvura é offset branco, para os mais diversos tipos de livros e impressos nobres. E o Scrita é indicado para livros de muitas páginas, como dicionários, bíblias”.

O mercado editorial é abastecido por fábricas e distribuidores, mantendo uma relação em que a troca de informações e ideias vale tanto quanto o acerto de preços. A tecnologia evolui ao ponto do lançamento de papel sintético produzido a partir de material plástico. Surpresa, para quem está habituado a folhear derivados da celulose (veja matéria na página seguinte).

A Vivox é uma das grandes distribuidoras e repassa ao mercado parte da produção das fábricas. O diretor Wolf Schön explica, basicamente corroborando os colegas:

“São dois grandes grupos a considerar, os revestidos (couchés) e os não revestidos. Couchés são mais caros, maior gramatura, restringindo seu uso aos chamados livros de arte. Os não revestidos sevem para todos os outros segmentos, e podem ser brancos ou off-white”. Para escolher um tipo de papel, o executivo da Vivox recomenda que o editor considere dois fatores. “Preço e gramatura são mais importantes na decisão”, afirma. “A gramatura, além do custo, também define outras características como portabilidade e aparência do livro.”

A International Paper não prescinde do retorno dos clientes. “Desenvolvemos produtos e serviços específicos”, afirma o gerente Antonio Gimenez. “Um dos resultados é o lançamento do Chambril Avena, papel off-white desenvolvido em atenção à demanda dos editores”.

O ‘Conselho de Papel’ montado pela Arjowiggins funciona nesse diapasão. Notifica lançamentos, abre seu Paper Point (showroom) para qualquer editor testar amostras e desenvolver projetos junto com seu corpo técnico. “Nosso negócio é concretizar as mais diferentes ideias aliando um papel com personalidade a uma adequada técnica de impressão e acabamento”, declara Ronald C. Dutton, diretor comercial e marketing de Papéis Finos para a América Latina. “Esse conjunto resulta em um produto com alta qualidade e valor agregado capaz de transmitir um conceito – de sofisticação, elegância, criatividade, inovação... A escolha do papel é sempre do editor, que tem em nosso backselling apoio para fazer a seleção correta, considerando o conceito de comunicação do livro, seu público, técnica de impressão, tiragem e recursos.”

“O segmento editorial é muito importante e muitos investimentos são feitos nos produtos destinados a este mercado”, acrescenta Francine Felippe Santos, da MD Papéis. “Trabalhamos em melhorias técnicas nos produtos (alvura, opacidade, corpo), novas gramaturas (de acordo com a necessidade do mercado), certificações.

Para o executivo da International Paper, Antonio Gimenez, o livro será sempre a mídia mais apreciada. Com conhecimento de causa, faz sua avalliação:

“A leitura de um livro também se traduz no que chamamos de experiências sensoriais e é permeada de prazeres que fazem parte do encantamento e da atração exercidos sobre o leitor – o livro é avaliado pelo olhar, manuseado e, até mesmo, cheirado. É clara a progressiva valorização da leitura, à medida que avança a escolarização da população. O acesso à escola e o maior número de anos de estudo indicam que o Brasil ainda tem muito espaço para novos leitores de livros em papel”.

A editora Aline Valli, da Cosac Naify, que conhece as especificidades de cada tipo de papel, valoriza a cooperação dentro de dois importantes elos da cadeira produtiva.

“O fornecimento de amostras permite que os projetos possam ser simulados e testados antes de sua produção final. Esse tipo de ‘serviço’ é fundamental, pois quando você consegue materializar uma ideia para que ela seja apresentada ao cliente, a aprovação é muito mais fácil e dá segurança de que o material realmente ficará bom para todos os envolvidos no projeto.”


PAPEL DE MATÉRIA PLÁSTICA
Investindo US$ 2 milhões por ano em pesquisas e desenvolvimento, a Vitopel provocou sensação ao lançar, na 11ª Brasilplast, em maio de 2009, no Anhembi, São Paulo, o papel sintético produzido a partir de material plástico descartado pós-consumo (garrafas, sacolinhas, embalagens, frascos etc.) e coletado por cooperativas de catadores. A médio prazo, a intenção é adquirir 100 toneladas/mês desses fornecedores. O dado sustentável: 1 tonelada de papel sintético retirou das ruas e lixões cerca de 850 quilos de plásticos. Quem olha o Vitopaper à distância, não percebe nada.

No manuseio, só quem está habituado a manipular papel irá perceber uma consistência maior, mas sutil. E, no entanto, esse papel ‘de plástico’ utiliza a tecnologia dos filmes de polipropileno biorientado (BOPP), filmes plásticos que são usados em rótulos, embalagens de biscoitos e pet food, indústria gráfica, entre outras aplicações. Disso resulta um material similar ao ‘couché’, que permite escrever com esferográficas ou lápis, do mesmo modo que reage bem à impressão em máquinas off-set planas ou rotativas.

Mais: consome 20% menos tinta que os concorrentes convencionais e é 40% mais leve. Quando se sabe a origem da matéria-prima, o espanto aumenta.

Durante três anos, a Vitopel desenvolveu pesquisas com o Departamento de Materiais da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). Chegou ao produto final, devidamente patenteado e registrado em nome dos dois, com estas características: impermeável, espessura mais fina e ao mesmo tempo mais resistente – não rasga –, capaz de proporcionar excelente acabamento gráfico, durabilidade e resistência a água e contaminantes líquidos. E infinitamente reciclável. Segundo o diretor industrial da Vitopel, Sérgio Fernandes, “a novidade foi usar material reciclado vindo de coleta de plástico pós-consumo descartado, incluindo uma cesta de outros polímeros, visto que não é viável a total separação de cada tipo no processo de coleta seletiva. A inovação atenderá ainda os segmentos gráfico, de rótulos e etiquetas, de publicidade (banners e outdoors), entre outros”.

A Vitopel já desenvolve filme plásticos para papel sintético, utilizando somente matérias-primas virgens. Produz 150 mil toneladas de filmes flexíveis de BOPP por ano e estima investimentos de US$ 55 milhões até o ano que vem, na ampliação da produção.

Por atuar em um setor sensível aos apelos ambientais, a Vitopel planeja conquistar mercados externos. A China é um deles. O presidente José Ricardo Roriz Coelho fez uma apresentação a empresários daquele País, informando a plateia de que já há uma linha de produção para o desenvolvimento do papel sintético. “Temos recebido consultas de empresas que planejam imprimir materiais promocionais e institucionais com apelos mais sustentáveis”, afirmou Roriz Coelho.

O primeiro livro impresso com papel sintético Vitopaper é ‘Para onde nós vamos? Os roteiros de viagem da família Müller’, que pode ser encomendado diretamente no site www.familiamulleraventura.com.br. “Tudo a ver com nossa proposta de aliar sustentabilidade, ecoturismo e aventura em família”, conclui Ronny Müller, um dos autores.



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