Uma boa ideia, cada vez melhor | Revista Panorama Editorial - A revista do livro Revista Água Gestão e Sustentabilidade
Busca

Uma boa ideia, cada vez melhor Edição 50

 

Recorde de inscrições (mais de 2,5 mil) e de categorias (21). Muitas revelações junto a nomes consagrados. Editoras de porte médio e pequeno levando troféus. Viva o Jabuti!

Cinquenta anos não é pouca coisa, e é por isso que, na entrega do Prêmio Jabuti, cinquentão em 2008, o curador José Luiz Goldfarb permitiu-se um comentário irônico. Depois dos 50, discursou, seria difícil melhorar. A plateia riu. Goldfarb, ele próprio, não é pouca coisa. Homem grande, com a barba grisalha que enche seu rosto, é curador do Prêmio há 19 anos. Físico formado pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Filosofia e História da Ciência pela McGill University, do Canadá, acumula diversos e múltiplos cargos de coordenação, assessoria, direção ou consultoria em atividades ligadas à cultura em geral, e, quase sempre, ao livro.

Com tantas credenciais, orgulha-se de ver desmentida sua ironia de um ano atrás. Porque, em sua 51ª edição, o Jabuti bateu o recorde de inscritos, com mais de 2,5 mil títulos, que passaram antes pelo crivo das editoras. Feito mais notável porque o final de 2008, quando acontecem os principais lançamentos editoriais, testemunhou o auge da crise mundial. Falava-se em crack generalizado, especialistas discutiam o colapso da economia, pessimistas previam desemprego em escala planetária.

O Jabuti não apenas sobreviveu como falou mais alto. Goldfarb faz o necessário retrospecto:
“Teve coisa muito boa. Revelações, muitas. Autores consagrados que voltaram a mostrar obras de criatividade. Diversidade de editoras concorrendo, tanto as grandes quanto as médias e as pequenas, muitas destas com mais de uma obra. Essa é a parte que merece ser ressaltada, ou seja, o fato de haver muita editora média classificada e ganhando! Isso foi um grande diferencial”.

O curador José Luiz Goldfarb quer dizer que o Prêmio Jabuti se projetou de tal forma, sua imagem garante tal credibilidade aos vencedores e como resultado ninguém admite ficar de fora. Se as grandes competidoras seguem abiscoitando estatuetas, assim como os Estados Unidos fazem na Olimpíada, o que se verificou na versão 51 do Jabuti foi a diversidade.

“Editoras tradicionais, como Cosac Naify, Companhia das Letras, 34, Record – essas sempre levaram várias categorias. Contudo, quero destacar editoras de porte médio, que nem sempre participavam. Na categoria ‘Reportagem’, por exemplo, a L&PM, uma editora do Sul, muito boa - editou muitos clássicos, todo o Shakespeare - , pois a L&PM levou troféu. A Atelier apresenta altíssima qualidade. Assim como a Estação Liberdade.”

O curador, empolgado, prossegue a análise: “Posso citar algumas que são novidade, por exemplo, a que ganhou o 1º lugar da categoria ‘Ilustração para Livro Infanto Juvenil’, a Editora Leitura, pouco conhecida. As editoras universitárias, Unesp, USP, Unicamp, levaram vários prêmios. Além delas, o 3º lugar na categoria ‘Teoria/Crítica Literária’ é a Annablume Editora, você já ouviu falar?

Pois é, a Annablume é uma editora pequena, eu mesmo já editei lá uma obra. Pois há outras editoras de porte modesto, como a Iluminuras, a Capivara do Pedro Correa do Lago – aliás, não é comum ele participar do Jabuti. Ao contrário, a Imprensa Oficial do Estado está sempre presente, e ganhando. O Instituto Moreira Salles, por sua vez, também não é comum participar. O tradicional Senac já ganhou, este ano levou dois. Na categoria ‘Contos e Crônicas’, o 3º lugar foi da Auana Editora, também pouco conhecida”.

No anúncio dos vencedores das 21 categorias, dia 29 de setembro passado, Goldfarb provocou, sem querer, um instante de emoção na platéia. Ao anunciar os vencedores da categoria ‘Didático e Para-Didático’, indagou se alguém conhecia a D.A. Produções Artísticas. Quase às lágrimas, Dulce Auriemo levantou-se e confirmou: “Eu sou a D.A., e este é o meu primeiro prêmio.”

“Enfim, tivemos uma variedade grande de autores, prossegue Goldfarb. Isso é uma resposta àqueles que, vira e mexe, aparecem dizendo que o Jabuti só dá troféu a quem é consagrado. Não é verdade. O que acontece é que as grandes editoras têm uma produção de qualidade. Este foi um ano de comprovação. Daqui a cinco anos, vamos fazer um retrospecto e teremos a certeza de que o 51 foi um ano muito bacana. Uma boa demonstração da democracia do prêmio, mostrando que não é um jogo de carta marcada.”

Com tanto tempo de curadoria, o professor, físico e amante das artes tem histórias para lembrar. “Jorge Amado, quando ganhou pela primeira vez (1959), não era tão conhecido. O?Menalton Braff vivia isolado no interior, até que em 2000 ganhou com ‘À Sombra do Cipreste’ (Melhor Livro de Ficção). E voltou à ativa, até hoje”.

Goldfarb também estende seu olhar abalizado para as categorias não literárias. O Jabuti cresceu e forjou 20 modalidades, que este ano, por causa do Ano da França no Brasil, tiveram o acréscimo de ‘Tradução de Obra Literária Francês/Português’. Dá um bom exemplo: “O livro que entrou em 3º na categoria ‘Ciências Exatas, Tecnologia e Informática’, ‘O Nome do Jogo’, da Lucia Santaella (e Mirna Feitoza), aborda uma questão interessantíssima. A Lúcia foi chefe de Pós-Gradução em Semiótica, sempre atuou na área de Teoria Literária. Agora, despontou em (Ciências) Exatas”. E o que mais merece destaque no Jabuti, professor Goldfarb?

“Eu quero assinalar várias coisas. Primeiro, o Jabuti foi pioneiro como prêmio. Foi um grande exemplo de festa da literatura e do livro. Hoje, temos muitos prêmios, o Portugal Telecom, o Prêmio Governador de São Paulo, o Prêmio de Passo Fundo, enfim, são vários prêmios com dinheiro alto.”

“O Jabuti tinha essa missão da CBL desde o final dos anos 1950. Nos últimos tempos, juntou-se a iniciativas que somam, todas, o objetivo de furar as barreiras ainda existentes no Brasil, vou repetir, em torno do nível ainda muito baixo de leitura.”

“Ou seja, é muito pouco, para um País que quer sair do Terceiro Mundo, que busca ser competitivo e ser alçado à categoria de Primeiro Mundo, um índice de 3 ou 4 livros por ano, por habitante. Enquanto tivermos um índice de leitura como esse, será complicado. Precisamos buscar o que acontece no Primeiro Mundo, a leitura que se faz por prazer, de se ter o hábito de ler no metrô, no fim de semana. Contudo, é claro que para se chegar a esse nível, é necessária uma ação mais ampla que envolve o governo e a sociedade.”

“O Prêmio Jabuti, até por ter sido um modelo de ação junto à sociedade, um modelo de prêmio, de festa, o Jabuti tem importância única. Ele e também a nossa Bienal do Livro, que ajudou a multiplicar as feiras, os salões. Há muita coisa ainda por fazer, é claro.”


Nobel, título de dinheiro e nobreza
O prêmio mais bem pago do mundo, além de mais tradicional, é o Nobel de Literatura, que oferece US$ 1,4 milhão (equivalente a 10 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 2,4 milhões). Entregue em jantar solene oferecido pela Real Academia de Ciências, o troféu de 2009 foi para Hertha Müller, escritora nascida na Romênia e naturalizada alemã desde que lá se radicou, em 1987. Atrás do cobiçado Nobel, aparece o Prêmio Planeta, do grupo editorial espanhol, que oferece nada menos do que 601 mil euros (equivalentes a R$ 1,5 milhão) ao vencedor, e mais 150 mil euros ao segundo classificado.

Aberto a concorrentes de todas as línguas e países, este ano recebeu uma inscrição do Japão. Outro cobiçado troféu, o Man Booker Prize, reserva 50 mil libras (R$ 165 mil) ao ganhador. Nesta edição, foi Hillary Mantel, com o livro ‘Wolf Hall’. A Record, que detém direitos de publicação, prepara o lançamento para janeiro próximo, mas já publicou ‘À Sombra da Guilhotina’, que o título indica ter como inspiração a revolução francesa.



Conheça nossas outras publicações