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Amigo fiel, companheiro de mais de 80 anos Edição 49

 

Aos 95 anos, o bibliófilo José Mindlin mora cercado de livros. Ele continua um “otimista incorrigível”, quando é indagado a respeito do livro e do hábito da leitura
Por Celso Kinjô e Dina Amêndola

O garoto de 13 anos entrou no sebo da Rua XV de Novembro, centro velho de São Paulo. Precoce, curioso, percorreu estantes e se fixou em um livrinho de cor marrom, pequeno, intitulado ‘Discurso Sobre a História Universal’, de Jacques Bossuet.

Era uma edição portuguesa, publicada em Coimbra, informava o rodapé de uma das páginas de abertura. Contudo, o que fascinou o menino que vestia calça curta pela idade, mais que o conteúdo, foi a data da impressão: 1740.

Corria o ano de 1927. Ao fazer mentalmente a conta, o menino ficou chocado com a antiguidade que fo­lheava com suas próprias mãos. Dois séculos de história separavam um e outro!

Ali começou a longa viagem de José Ephim Mindlin pelo mundo dos livros, que está longe de terminar.

Gosta de orientar os jovens que frequentam a sua biblioteca a respeito das características de um livro raro. Não é necessariamente sempre uma edição antiga, costuma dizer. Com fluência, cita livros ‘modernos’, isto é, que vieram à luz há menos de um século, que considera mais importantes que muitos dos ‘antigos’.

“E a gente vai adquirindo, por conhecimento, pelo estudo sobre livros, certo sexto sentido em pressentir se um livro desses antigos é importante”.

À beira de completar 95 anos, frequentador quinzenal do chá das quintas na Academia Brasileira de Letras, no Rio (nas outras quintas-feiras do mês comparece a sessões da Academia Paulista de Letras, da qual também é membro), hoje se dedica de tempo integral ao objeto de desejo de uma vida inteira, e se confessa um ‘otimista incorrigível’, quando é perguntado sobre o futuro do livro, ou sobre a falta de hábito de leitura do brasileiro.

“Não dá para generalizar. Acho que nos centros mais povoados, onde existem universidades, onde há certa vida cultural, acho que os brasileiros jovens lêem também bastante. Eu vejo aqui, pela frequência de jovens, de filhos e netos de amigos que vêm à biblioteca, são jovens muito interessados. De modo que o interesse é contagioso, felizmente, e eu creio que vai continuar a existir”.

Aos pais que sonham com filhos tão interessados em livros quanto parecem se envolver com jogos eletrônicos ou internet, Mindlin faz o diagnóstico de especialista:

“O ideal é começar na infância. Se os pais lêem, a probabilidade de os filhos também lerem, é muito grande. Desde, é claro, que não seja um interesse imposto, forçado. Se houver proibição de certos livros, pode ter a certeza de que, dias depois, o livro aparece na mesa, já tendo sido lido. A receita, para alguém se tornar leitor, é liberdade de leitura, exemplo de leitura na própria vida dos pais.

Embora, em muitas casas, os leitores sejam em primeiro lugar os filhos, porque os pais não adquiriram o hábito da leitura. O ideal é que se forme uma corrente ininterrupta. Mas num país como o Brasil, com a extensão territorial, com uma grande dose de analfabetismo, tudo isso não permite conclusões tranquilas sobre o que se lê. Pelo que se edita, e se vende nas livrarias, é forçosa a conclusão de que se lê mais do que se fala por aí. Senão, o País não comportaria as milhares de tiragens que as editoras estão soltando quase que diariamente”.

Grandeza de ‘tiragem’, mesmo, é o acervo que acumulou em mais de oito décadas de buscas e pesquisas. São cerca de 35 mil títulos, sem contar, ele faz a ressalva, os lançamentos comerciais. Metade da biblioteca, doou à Universidade de São Paulo (USP), que reservou verba para construir um edifício especialmente para abrigar a ‘Brasiliana’ que ganhou de presente. Gesto nobre de alguém que decidiu dividir seu patrimônio pessoal, por sabê-lo valioso para o conhecimento da humanidade.

“Quase pode se dizer que a biblioteca foi se formando por si mesma, embora, evidentemente, com uma participação minha na escolha das obras”, diz, com fina ironia. Aos que se espantam com sua capacidade de reunir tamanho acervo, no que se configura como a maior biblioteca particular do Brasil, Mindlin transfere parte da responsabilidade aos pais, que o iniciaram. Ainda moleque, incursionava com alguns colegas pelo centro de São Paulo.

“A gente, para ir à cidade – essa era a expressão que se usava na época – pegava o bonde. E percorríamos sebos. Alguns foram ficando mais preferidos, mais frequentados, também por causa da relação com os livreiros. Que não era propriamente uma relação comercial, mas uma relação de afinidade, de troca de interesses”. Quando os Mindlin mudaram para a Marquês de Paranaguá, que cruza a Consolação, a proximidade ficou maior. “Eu andava no máximo dez quarteirões e estava visitando os sebos”, lembra.

Ele conta que, três décadas mais tarde, cruzou na mesma XV de Novembro com o proprietário do sebo onde tinha comprado seu primeiro livro. Deu-se o diálogo:

- Então, Freitas, você se lembra que o primeiro livro antigo que comprei foi na sua livraria?
- Pois é claro que eu me lembro, respondeu o livreiro. E descreveu, com precisão de perito no assunto: “Era um livro marronzinho, pequeno assim...”

A família Mindlin morava na Vila Mariana, zona sul da capital paulista. O pai era dentista, e aviava receitas como E. H. Mindlin, as iniciais correspondendo a Ephim, nome que transferiu ao filho, e Henrique. Só que o amor à arte paterno tinha outro endereço. Sua fixação eram os flamengos e holandeses do século XVII. Depois, passou a colecionar impressionistas modernos. Certa vez, viajou à Holanda apenas para acompanhar uma retrospectiva de Rembrandt, em Amsterdã.

“De modo que eu cresci nesse ambiente cultural, recorda. Meu pai era dentista por necessidade. O interesse básico dele sempre foi a arte”.

Também por necessidade, para seguir uma profissão, José formou-se em Direito, pela USP. Trabalhou num escritório que, entre seus clientes, tinha Caio Prado Júnior e Monteiro Lobato. Tornaram-se amigos, e sua busca por livros bons e raros ficou facilitada, ao passar a freqüentar rodas intelectuais. Foi jornalista do ‘O Estado de S. Paulo’. Anos mais tarde, casado, com filhos, fundou o que viria a ser uma das grandes empresas do setor automotivo, a Metal Leve. Foi muito bem sucedido nos negócios, mas a mesma referência que valia para o pai E. H. Mindlin, vale para o filho José E. Mindlin. A empresa era uma necessidade, porque sua vocação, desde os primeiros anos, foi a de bibliófilo.

É mesmo um incorrigível otimista, esse senhor que há oito décadas mergulhou no mundo dos livros. Continua não vacilando ao especular em torno do futuro:

“Ninguém pode afirmar o que vai ser do futuro, não só do livro, mas da sociedade em geral, do País, afirma Mindlin. Tudo isso são incógnitas que você só poderá prever num futuro muito próximo. Num futuro mais distante, nem a gente vai estar lá e nem se sabe como vai funcionar. Mas enfim, o livro tem uma história de mais de 550 anos. Os primeiros livros foram publicados no século XV, e continuam sendo publicados em forma crescente. De sorte que o desaparecimento, a meu ver, é pouco provável.

Por que a informação que o livro traz, pode aparecer na tela, em uma série de formas, mas é insubstituível o prazer de ter um livro na mão, de manuseá-lo. Porque, quando você vê uma exposição, ela tem uma sequência mais ou menos rígida. Ao passo que, quando você tem um livro na mão, você pode voltar atrás, a assuntos que você se sentiu mais atraído. São coisas diferentes. Eu acho que o que se publica de livros no mundo é uma coisa fabulosa, mas assim mesmo, grandes bibliotecas públicas se conservam, e muitas bibliotecas particulares de maníacos como eu”.

As duas academias das quais faz parte fizeram convites para ocupasse uma cadeira, algo excepcional, dadas as convenções estabelecidas para o ingresso. Como as vagas se abrem por morte dos titulares, são então feitas inscrições de eventuais candidatos. Havendo mais de um, realiza-se uma eleição, quase sempre disputada, com cabala de votos e o que houver de lobbies a serviço dos interessados.

José Mindlin, em 1999, foi cogitado para a Academia Paulista. Ele hesitou. “Amigos me falavam que eu devia entrar, mas eu dizia: ‘Olha, eu pleitear votos, é uma coisa que nunca fiz na vida, e não é agora que eu vou pedir voto. Mas a resposta deles, que veio depois, foi muito mais convincente, porque me disseram: ‘O senhor não precisa pedir voto. Se o senhor for convidado, o senhor aceita? Ora, convidado é outra coisa. Um convite seria uma grande descortesia não aceitar”.

Repetiu-se o gesto em 2006, quando foi chamado para integrar o grupo de notáveis reunidos na Academia Brasileira de Letras. O dia da posse na cadeira número 29, garante, foi o único em que usou o pesado fardão escuro que o entronizou na categoria de ‘imortal’ da ABL. Desde então, a cada quinzena embarca numa ponte aérea no início da tarde, para reunir-se com colegas que dividem os mesmos interesses. E a viagem, em lugar de ser cansativa, traz a José Mindlin uma conotação de infância:

“Pegar um avião – diz o maior colecionador de livros do País – é um hábito quase parecido como pegar um bonde e ir à cidade.



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